Por que o divã se tornou o símbolo da psicanálise

Presente de um paciente a Sigmund Freud, aquele tipo específico de sofá, embora em desuso na atualidade, se mantém no imaginário popular

FOTO: ROBERT HUFFSTUTTER/CREATIVE COMMONS/FLICKR

Divã de Freud

O DIVÃ USADO POR FREUD, PRESENTE DE UMA PACIENTE

O pedaço de mobiliário, basicamente um sofá sem encosto de origem turca, entrou para o conhecimento popular como o principal utensílio da psicanálise. A escolha pela peça, no entanto, foi praticamente ao acaso.

No Império Otomano, divãs eram longos assentos feitos de colchão e almofadas, encostados à parede. Passaram a ser chamados assim por serem comumente encontrados em órgãos governamentais de mesmo nome, partes do corpo político de países muçulmanos.

Em meados do século 18, a mobília chegou à Europa como componente elegante de qualquer ambiente que se prezasse ao romantismo literário da época. Estavam presentes em todos os “boudoir” – antesalas femininas – e aos poucos ocuparam os cafés.

O auge do divã como mobília indispensável ao conforto já havia passado quando um exemplar chegou à casa de Sigmund Freud, em Viena – um presente de sua paciente Madame Benvenisti.

Ela disse ao psicanalista que, para ter sua cabeça examinada, teria que estar confortável. Comprou então um modesto divã bege, que Freud cobriu com tapetes persas vermelhos e almofadas de veludo.

A essa altura, ele já havia desenvolvido a metodologia que o tornaria o ponto de virada da psicologia. Ela consistia em ficar em silêncio enquanto pacientes falavam, de forma que eles baixassem guarda e revelassem o que de mais profundo guardavam no subconsciente.

Quanto mais pacientes Freud atendeu no sofá, e quanto mais escrevia sobre eles, mais dava-se conta de que a peça era um instrumento essencial para sua prática.

O divã tornou-se então uma ferramenta: deitados de barriga para cima e encarando o teto, os pacientes eram estimulados a olhar para si mesmos, em vez de divagarem pela paisagem na janela ou pelo rosto do analista. Este, por sua vez, tipicamente sentava numa cadeira, longe de vista da pessoa deitada.

A peça passou a incorporar toda a terapia psicoanalítica, uma boa notícia para fabricantes após o fim da moda romântica. Segundo o site “99 per cent Invisible”, a pequena Imperial Leather Furniture Company, localizada no bairro Queens, em Nova York, passou a vender divãs como se fossem “bolos saídos do forno”, a partir de 1940.

O proprietário, Irving Levy, patenteou uma versão do sofá que confeccionou com seu sócio. Toda vez que alguém entrava em sua loja, ele diria: “Sabe, nós fazemos o sofá de Freud”. Macios, mais baixos, sem botões ou almofadas, os divãs de Levy pouco remetiam ao original.

Na década de 1960, com o surgimento de novas correntes da psicologia e da primeira geração de antidepressivos, o utensílio começou a cair em desuso. Mas embora tenham se tornado mais escassos nas salas de terapeutas, mantiveram-se no imaginário popular como símbolo da prática. Em filmes, desenhos e cartuns, são o signo utilizado constantemente para representar uma situação de análise.

O original, de Madame Benvenisti, está bem guardado e pode ainda ser visitado na casa em que o pai da psicanálise viveu em Londres.

nexojornal.com.br


 

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