Daniel Sampaio: “A psiquiatria não me fez entender o amor mas tornou-me mais humano

 

O rapaz sombrio fez 70 anos, saiu do Hospital de Santa Maria, a casa que durante 52 anos foi sua, e prepara-se para aprender a trabalhar sem equipa. Viveu para contar um percurso que quer que dure mais dez anos. Afinal, ainda há livros para escrever, jogos de futebol para ver e, sobretudo, netos com quem se rir

 

No canto da sala, sentado na cadeira de encosto alto, o miúdo navega silencioso no tablet, o único ponto iluminado na penumbra do hall decorado de forma clássica. Os convidados entram, cumprimentam o dono da casa, dirigem-se para a sala ao lado, onde a luz de Lisboa entra pela janela aberta. E ele permanece ali, quase invisível. É o neto mais novo de Daniel Sampaio, o psiquiatra que estudou o comportamento dos adolescentes e que, pioneiro, se bateu por aqueles que muitas vezes mais parecem sinónimo de desadequação.

Abriu as portas de casa para falar dos 40 anos de carreira, antecipando a lição de jubilação que dará no grande auditório da Faculdade de Medicina de Lisboa, a 26 de outubro. Perante familiares, amigos, colegas e jovens médicos, fará um balanço da vida, da profissão e dos afetos. O momento da despedida será também altura para agradecer aos mestres que o influenciaram e para propor o futuro. Preparada com cuidado, a lição tem 120 páginas e será editada em livro.

Nesta última aula, tudo começará como sempre começa, com a relação com os pais, de quem diz ter herdado os valores. Do irmão, Jorge Sampaio, por duas vezes Presidente da República, reconhece que ficou a noção de serviço público. Da avó, não perdeu a ternura, renovada nos 45 anos de vida em comum com a mulher, também médica. Daniel, um homem que assume ter-se tornado mais livre e um psiquiatra menos dogmático. Aos 70 anos, está pronto a encerrar ciclos e a iniciar novos percursos. Mas talvez ainda não tenha chegado o momento de cumprir um sonho: ser ator.

Na véspera de completar 70 anos, saiu do Hospital de Santa Maria. Contaram-me que estava triste.
É natural, entrei no hospital com 18 anos e saí com 70. Entrei como estudante de Medicina, fiz o curso, a especialidade, toda a carreira académica até professor catedrático e acabei como diretor do Serviço de Psiquiatria. Sim, estava emocionado.

Parece um homem que não se desfaz em lágrimas como as que o seu irmão habituou o país. Como lidou com a emoção?
Nesta despedida até houve lágrimas. Pequenas. Sou contido para quem não me conhece, não sou muito alegre nem exuberante, mas consigo ser muito próximo das pessoas. O grande problema da reforma é que o quotidiano não será feito junto delas. A adrenalina do hospital também me faz falta. No dia seguinte à despedida foi a minha festa de 70 anos, com os amigos e a família. Depois senti um vazio que estou a tentar preencher.

Há dez anos dizia que o sexagenário era um idoso e não pensava reformar-se. Sente-se velho?
Não. A Medicina tornou a vida mais longa e talvez devêssemos rever o limite obrigatório de 70 anos. Os terapeutas familiares dizem que temos de nos adaptar aos diferentes ciclos da vida e acredito que sou capaz. Espero ter mais tempo para escrever.

É o que fará primeiro?
Tenho um livro pensado, que começo a seguir à lição de jubilação. Vou falar do que é ser pai, desde o projeto, passando por todas as fases, até ser pai de um adulto. Acompanhar a função parental ao longo da vida.

Escreveu 26 livros, cerca de 660 mil exemplares, um sucesso num país como Portugal. No seu círculo de amizades há grandes escritores. Nunca foi tentado pelo romance?
Uma pessoa muito importante na minha escrita foi o editor Zeferino Coelho, com quem trabalho há 25 anos. Ele sempre disse que a minha imagem não é de romancista, é de quem escreve sobre adolescentes, pais e escolas, e quando escrevi livros que se afastaram destes temas tive menos êxito. Não fecho essa porta, mas já tive mais vontade. Quando escrevi “Tudo o Que Temos Cá Dentro”, baseado na história real de um jovem cuja namorada se tinha suicidado, pensei nisso, mas percebi que perderia influência junto do público.

Na sua última lição vai falar de quê?
Primeiro, faço uma biografia e falo das figuras fundamentais da minha infância, os meus pais e a minha avó. Depois, vou falar dos meus mestres, um por um, mostrar os retratos deles e agradecer, porque não seria nada sem eles. A seguir será a transição do liceu para a faculdade e a escolha da Psiquiatria, vou falar do que fiz e inovei, sobretudo no tratamento das doenças de comportamento alimentar e do suicídio. A segunda parte será mais técnica e farei uma proposta de intervenção para os comportamentos autolesivos dos adolescentes.

A sua dedicação pioneira aos adolescentes é reflexo de uma adolescência que devia ter sido mais bem resolvida?
É sempre. Na última lição digo de mim próprio que fui um adolescente um pouco sombrio e demasiado responsável. Também tive alguma militância política, distribuía panfletos contra Salazar. Tudo muito sério. Devia ter-me divertido mais. Mas a ida para terapeuta de adolescentes foi ocasional. A minha formação foi na área de adultos, mas trabalhei com João dos Santos, que me alertou que os pedopsiquiatras não davam muito certo com adolescentes. Entusiasmou-me, ajudou-me e, quanto mais estudava, mais interessado ficava.

Tinha-lhe dado jeito encontrar um Daniel Sampaio na sua adolescência?
Acho que sim, gostava de ter falado com alguém. Os meus pais eram grandes educadores em termos da ética e valores, mas muito críticos e restritivos da minha liberdade. Gostaria de ter tido um bocadinho mais de liberdade.

Como chegou à psiquiatria?
Com 17 anos queria ser ator de teatro, mas fui muito influenciado por uma professora de Filosofia, que me aconselhava Psicologia ou Psiquiatria. Fui para Medicina e nunca pensei noutra especialidade. Achava que a psiquiatria ia explicar-me tudo.

O seu pai, um médico de referência, não o tentou influenciar para não escolher Psiquiatria?
O meu pai tentou influenciar-me para não ir para o teatro. Mas depois teve muito gosto em que fosse para Medicina. Ele era de Saúde Pública, muito virado para as epidemias e a prevenção de doenças e não conhecia bem a psiquiatria, achava que não era muito científica.

Ainda é assim?
Em 40 anos de especialidade assisti a uma evolução extraordinária na psiquiatria. Hoje, há uma gama muito grande de medicamentos à disposição dos médicos e percebeu-se que é muito importante compreender a vida das pessoas, mas há doenças que são biológicas e que têm de ser tratadas com medicamentos. Antes, os loucos tinham de ser separados da sociedade e a doença mental grave não tinha muito tratamento. Melhorou muito, mas um dos grandes problemas da psiquiatria continua a ser o estigma.

TIAGO MIRANDA

Como lida com a credibilidade do diagnóstico?
A psiquiatria estava muito separada da Medicina. O Santa Maria foi o primeiro serviço criado num hospital geral. A aproximação dos psiquiatras aos demais médicos foi uma conquista e hoje existem exames, como a ressonância magnética nuclear, que nos permitem fazer diagnósticos e perceber melhor certas doenças.

Foi olhado com desdém pelos seus pares?
Sempre procurei que a psiquiatria estivesse ao alcance das pessoas, um lema que se traduz na minha obra escrita. Em 1993, publiquei um livro que falava da esquizofrenia, da depressão grave e do suicídio porque achei que estes temas, que eram completamente tabu, deviam ser explicados. A esquizofrenia é uma doença complexa, mas que pode ser explicada, um trabalho ainda embrionário em Portugal.

Acabou por não se afastar do seu pai. A sua abordagem também é pedagógica.
Tem razão. Herdei do meu pai, e do meu irmão, um certo sentido de serviço público.

Mas não respondeu: os médicos de outras especialidades olhavam-no com desconfiança?
Nos primeiros anos, sim. Está muito melhor porque conseguimos explicar que há muitas pessoas com problemas de saúde mental em Portugal: em cada 100 portugueses, 22 terão algum problema de saúde mental ao longo da vida.

Porque os números estão sempre a aumentar?
Porque o diagnóstico é mais rápido, há mais acesso aos serviços e surgiram novos problemas. Como a internet, que mudou muito as relações familiares. Já criámos uma consulta em Santa Maria, que seria completamente impensável há alguns anos, para essas novas dependências.

Esta tendência continuará a agravar-se?
Acredito que sim, embora as doenças mentais mais graves, como a esquizofrenia e a doença bipolar, estejam estáveis. São as mais difíceis de tratar.

Não houve avanços?
Há psicofármacos muito importantes mas não são suficientes, é preciso fazer um trabalho de psicoeducação junto das famílias. Dar-lhes apoio porque as pessoas vão viver mais, terão a doença controlada durante mais tempo, mas se não dermos apoio às famílias, os doentes não vêm ao tratamento e os familiares não sabem lidar com a situação.

Ainda lhe chegam queixas de terem loucos na família? Ainda se usa esta expressão?
Sim, mas para os psiquiatras a palavra louco não é má.

A loucura é o último reduto da liberdade ou apenas uma doença?
São expressões muito críticas, ligadas a um grande estigma. Ter um familiar louco é um peso enorme. Para nós, psiquiatras, a palavra é sinónimo de doença mental grave, o que é fascinante porque ainda não sabemos tudo sobre estas patologias.

O que falta saber?
O peso dos fatores genéticos. Ou seja, se um esquizofrénico tiver um filho, qual é a possibilidade de este filho desenvolver a doença e se é maior do que na população em geral. Ou na perturbação bipolar, onde os fatores genéticos são muito importantes mas não sabemos qual é o papel do trauma. Se um filho de um esquizofrénico sofrer um abuso sexual ou maus-tratos na infância, qual é o peso deste trauma no agravamento da doença.

Ainda não foi descoberto o gene da loucura?
Não. Sabemos que estas doenças são multifatoriais e é importante pensar assim para não limitar o tratamento. Não se pode ficar à espera da descoberta do gene para tratar a doença, mas também não se pode pensar que é apenas resultado do relacionamento familiar do doente, isso era a psiquiatria de há 40 anos, fortemente influenciada pela psicanálise. Eu vivi essa influência.

Livrou-se dela?
Não, mas relativizei-a. Quando comecei, o paradigma psicanalítico era dominante. Fiz formação em grupanálise e depois afastei-me, conservando alguns princípios da compreensão do outro e da relação médico-doente. Mas percebi que a psicanálise estava a deixar de lado o tratamento da doença mental grave.

Ou seja, a medicação?
Foi muito importante perceber o contributo de Freud e dos seus continuadores para compreender o inconsciente, mas nos anos 60 e 70 houve uma grande dominância da psicanálise que fez com que muitos doentes não fossem tratados. Neste momento é preciso pensarmos que os medicamentos biológicos são muito importantes para as doenças mentais graves.

Porque é que em Portugal ainda se faz segredo do recurso à psicoterapia?
O panorama só vai mudar se houver figuras públicas que assumam ter um problema de perturbação mental e que se trataram e melhoraram. Nos Estados Unidos esta atitude foi fundamental. Em Portugal ninguém faz isso. O Pedro Paixão, escritor, fez ao dizer que tinha uma doença bipolar, mas ficou marcado. É raro, mas seria muito importante mostrar que a psiquiatria não é um bicho de sete cabeças.

Júlia Pinheiro disse que as filhas estavam a ser tratadas da anorexia.
E correu bem. Não estou a violar o segredo profissional porque é público: a Júlia teve uma filha internada no nosso serviço em Santa Maria, assumiu e foi útil para o tratamento das anoréticas. É fundamental tirar a vergonha dos temas da psiquiatria. A ideia do louco ainda é muito estranha.

A psiquiatria tem o poder de decidir o que é normal e patológico. Este limite mudou?
Muito. E mudou a ideia de que as pessoas com um problema têm de ser afastadas. No final dos anos 70, telefonavam para o consultório a dizer “preciso que interne o meu marido!” Havia enfermeiros especializados em levar as pessoas à força para hospitais onde ficavam a vida inteira. Hoje não é assim, felizmente, mas temos de trazer a psiquiatria para o dia a dia. E, sobretudo, ajudar as famílias. Não imagina o que é a experiência de ter um filho com 17 anos com uma psicose e não sabermos se é consequência do consumo de canábis e se é tóxico ou se ele vai ficar esquizofrénico. Um jovem que experimente a canábis, se tiver antecedentes de doença mental na família, corre um risco muito grande e pode ficar permanentemente afetado. Mas há pessoas com comportamentos estranhos que têm o que nós chamamos uma perturbação de personalidade.

É uma doença?
Esta é uma grande controvérsia, está classificada como tal, mas tem características diferentes, nota-se através do relacionamento com as outras pessoas. Não tem um quadro clínico bem definido como a esquizofrenia, mas pode causar graves problemas. Mas há quem seja apenas diferente e aí a psiquiatria não deve intervir.

Quem são os psiquiatras para decidir se alguém é doente ou apenas diferente?
O que nos guia é o sofrimento. Se alguém é apenas inadaptado, não intervimos. Agora, se a pessoa não consegue trabalhar, se tem conflitos, não dorme, não se alimenta, sofre e pede ajuda…

Nem todos pedem. Nestes casos, o que fazer?
É muito difícil. Em 1998, criou-se a Lei de Saúde Mental e a partir daí é permitido o internamento compulsivo, mas é uma decisão difícil.

Fez muitos?
Sobretudo como diretor de serviço. Não pode ser algo de um momento para o outro ou feito a pedido da família. Na adolescência é comum haver pedidos de pais para internar os filhos porque gritam e têm comportamentos desajustados. Mas nós só podemos fazer um internamento compulsivo quando a pessoa não tem a mínima consciência do que se está a passar.

Temos sido confrontados com casos de extrema violência envolvendo jovens. Se não são situações de doença mental, que adolescentes são esses?
Muitas vezes há tóxicos presentes. O álcool e a canábis aumentam a violência. Os contextos do grupo também. Mas a resposta é sempre a prevenção. Têm de ser feitos programas nas escolas, explicando como se podem resolver os problemas sem recurso à violência, o que em Portugal está muito embrionário. Grave é o cyberbullying. É anónimo, acontece a qualquer hora do dia ou da noite, com o jovem a receber imagens chocantes no telemóvel sem que ninguém tenha a noção do que está a acontecer. Terá consequências importantíssimas em termos de saúde mental. É a minha grande preocupação e talvez me meta nisso.

Continua fascinado pela psiquiatria.
Não há nada mais fascinante. Uma pessoa com uma doença mental grave comunica-nos algo que não sentimos como real.

Dá-nos uma dimensão que nos é inacessível.
Ou a que só temos acesso episodicamente. Os escritores dizem que quando estão próximos do sonho escrevem melhor. O esquizofrénico, o bipolar, dizem coisas que não compreendemos. Para eles, o delírio é a realidade. Quando um doente diz que as estátuas de Lisboa estão a olhar para ele, está convencido disso. Não adianta dizer-lhe o contrário. Temos três hipóteses: ou nos afastamos dessa pessoa, ou entramos em contradição com ela ou nos sentamos a ouvi-la e dizemos que a vamos ajudar porque aquilo lhe está a causar sofrimento. O interessante é que essas pessoas têm momentos em que colocam o delírio em dúvida, o que lhes causa um sofrimento enorme.

Foi essa relação que o trouxe para a psiquiatria?
Não, foi tentar compreender o amor e o ódio, a guerra e a paz. Vou explicar isso na minha última lição. Nisso, a psiquiatria não me ajudou, mas tornou-me mais humano.

Não foi para ouvir aquilo de que não se fala?
Claro que me interessou ouvir as pessoas revelarem as suas dimensões mais escondidas. E, ao fim de 40 anos, sei logo as pessoas a quem conseguirei ajudar.

Como?
Porque são pessoas que me comunicam uma dimensão que me fascina e se eu estiver fascinado é mais fácil ajudar. Se uma pessoa contar uma história que não me mobilize, poderei ajudá-la, mas não vamos estabelecer uma relação terapêutica transformadora.

É uma afirmação controversa.
Claro que é. Mas é o mais interessante: construir, a par e passo com uma pessoa, uma relação em que ambos dão.

E recebem.
Sim. O terapeuta tem de impor alguns limites. Não pode falar muito da sua vida privada, não pode ir ao café. Muitas vezes perguntam-me, porque não vai ao café? Se for, perco a distância.

Como é que os seus doentes adolescentes o tratam? Não o convidam para ir ao café?
Tratam-me por doutor ou professor e convidam-me constantemente, mas digo que não. Eles sabem coisas sobre mim porque às vezes apareço nos jornais. Que sou do Sporting, que tenho sete netos, que escrevo livros… Mas, curiosamente, quando se começa a trabalhar, nada disso é importante. Deixo de ser o Daniel Sampaio, figura conhecida, e passo a ser uma parte do pai, da mãe. Agora tenho um jovem que me trata por avozinho. Trata-me com ternura, tem 18 anos, e perguntou-me se me podia tratar assim e eu deixei.

Aproximou-se de corações selvagens que a nós só muito raramente é dado ver. Algum o marcou?
Muitos. Houve um que me tentou agredir. Fechou-se no gabinete comigo e disse que me ia matar. Os gritos eram horríveis. Procurei ficar o mais calmo possível, mas tive medo porque era um homem enorme, jovem, cheio de força. Era esquizofrénico, delirante e muito agressivo. A sorte foi uma enfermeira que teve medo de abrir a porta, mas disse “sr. doutor, estou aqui!” e ele abriu a porta e foi-se embora. Não apareceu na consulta e não contactou comigo durante 15 dias. Acabámos por nos encontrar num centro comercial. Foi há muitos anos. Eu ia com dois filhos meus de oito e nove anos pela mão e pensei que ele iria fazer uma cena. Mas chegou ao pé de mim e disse: “Como está, sr. doutor? Vou marcar a consulta.” E assim foi e continuou durante muitos anos e nunca, nem eu nem ele, falámos do assunto.

TIAGO MIRANDA

Ao fim de uma carreira longa, como é que a psiquiatria o modificou?
Tornou-me mais humano, menos rígido e crítico, mais aberto à diferença. Sou muito melhor terapeuta do que há 40 anos.

Voltava a escolher a mesma especialidade?
Sem qualquer dúvida, mas faria umas tentativas de teatro amador, que é uma falha minha. Talvez tivesse feito mais incursões no teatro do que na escrita. De resto, talvez tentasse não ter sido tão fanático na minha prática de psiquiatria.

Porquê?
No início da minha carreira, quando introduzi a terapia familiar em Portugal na sequência da minha formação nos Estados Unidos, achava que a terapia familiar resolvia tudo. Fui um bocadinho fanático e reconheço que cometi erros. Mas percebo que se não tivesse tido algum fanatismo não tinha imposto a ideia. Mas cometi erros com doentes que deveriam ter sido tratados de outra maneira.

Como?
Não me esqueço, por exemplo, de uma entrevista que fiz com dois irmãos, em que um estava psicótico e achei que pondo os dois a conversar isso resolveria. Eles discutiram e pensei que a sessão tinha corrido bem, mas, uma hora depois, voltou o pai a dizer que o filho tinha sido atacado pelo psicótico. Deveria ter mandado logo o psicótico para o hospital. Houve alturas em que fui excessivo nas minhas crenças. Hoje sou menos.

Fanático por terapia familiar. Casado. Pai. Nunca trouxe o método para dentro de casa?
Talvez uma vez… Tinha um filho que chorava quando ia para a escola e na altura estava em voga o que se chamava a “prescrição paradoxal”, que era, por exemplo, quando alguém chorava, dizer “chore mais”. Fiz isso. Ele estava a chorar e eu disse: “Aqui tens um lenço, podes chorar à vontade.” Ele ficou muito admirado e a verdade é que o problema se resolveu. Usei com ele uma técnica que usava com os doentes.

O terapeuta, afinal, invadiu a vida familiar.
Julgo que foi a única vez. Sou casado com uma médica nefrologista, ela está reformada mas trabalhou na área do transplante renal e da hemodiálises e nas reuniões com os colegas eu dizia que eles estavam sempre a falar de cateteres. Os psiquiatras não falam porque têm absoluta necessidade de descansar. Por isso, eu chegava a casa e procurava ser o mais livre possível na minha condição de pai.

E como avô?
Também, mas é muito mais fácil ser avô. Não sinto a angústia de ter de me preocupar com a escola, trabalhos de casa, saídas à noite, drogas… Tenho netos dos cinco anos — o que viu com o tablet —, ao mais velho, com quase 17. A nossa relação é completamente lúdica. Somos firmes, temos limites, a minha mulher é uma grande educadora, mas temos com eles uma relação muito livre.

Não há a tentação de fazer com eles uma sessão de psicoterapia?
Nem com os filhos nem com os netos. Uma vez um filho, achando que eu estava a dizer muitos disparates, disse-me “tens de ir a ti próprio”. Foi uma forma delicada de me chamar maluco. Eu estava a ser muito duro com ele e ele mandou-me tomar atenção. Serviu-me de limite.

E ao espelho? Está sempre a analisar-se?
Não, está automatizado. Sou reservado, mas tenho sentido de humor. Divirto-me a observar as pessoas. Este verão tive uma experiência fantástica: passei férias com quatro adolescentes, dois netos e os amigos. Foi divertidíssimo. A relação deles comigo era muito engraçada porque eles tinham muita curiosidade por eu ser psiquiatra de adolescentes. A princípio, tinham uma certa reserva, com medo que os fosse analisar, mas depois ganhámos confiança. Um até me mandou uma mensagem de parabéns no dia dos meus anos, tratando-me por Daniel. Para mim foi muito gratificante.

O que é que os novos adolescentes têm de bom?
Sou muito otimista. Têm uma enorme curiosidade e grande prazer em falar connosco, adultos. Também têm uma energia física muito grande e, por isso, o desporto escolar deveria ser mais valorizado. Mas têm um problema: o risco de serem superficiais. Querem respostas imediatas e não aprofundar conhecimentos.

Porque se mata um jovem?
Por várias causas, mas basicamente porque tem uma rejeição muito grande da sua pessoa, do seu corpo e do mundo. É como se o mundo não fizesse sentido. A maioria sofre de depressão. Daí ser muito importante ensinar os sinais de alarme, enviar as pessoas para consultas, ter psicólogos nas escolas.

O suicídio é o fracasso do psiquiatra?
Sente-se uma culpa muito grande. Tive o caso de um jovem que me telefonou às três da manhã, dizendo que se ia matar e eu disse-lhe para vir aqui a casa para conversarmos. Abri-lhe a porta e consegui evitar, mas, meses depois, já ele estava na faculdade e telefonaram-me a dizer que se tinha suicidado. Foi alguém com quem tive uma relação muito profunda e senti uma culpa enorme. Pensava que o devia ter internado e protegido. Mas um psiquiatra que não tem um suicídio na vida profissional é porque não tratou de casos difíceis. São situações muito pesadas, mas depois da reflexão, tornamo-nos melhores profissionais.

Para alguém tão contido e profissional, o Sporting parece ser um lado selvagem.
É uma paixão. Tenho sentido de dever e quando fui parar à mesa da assembleia geral encontrei uma crise muito grande e achei que devia ter um papel determinante. Estou muito orgulhoso do que fiz. Foi uma experiência muitíssimo boa, voltaria a fazer o mesmo porque contribuí para a melhoria do clube. Fui muito aguerrido, agressivo às vezes, também fui acusado de coisas terríveis e injustas, que aguentei com firmeza.

Agora com mais tempo terá mais protagonismo no clube?
Não. Vou apoiar a recandidatura do Bruno de Carvalho, que fez uma transformação profundíssima do clube, mas não volto a ter cargos importantes.

O que acha de sermos governados por uma ‘geringonça’? É bom para o país ter um Governo com uma denominação jocosa?
Não gosto do termo, é infeliz e não se adapta ao Governo. Sou um incondicional apoiante do primeiro-ministro, que conheci há muitos anos através do meu irmão. Tem feito um trabalho muito bom. Também sou um grande admirador do ministro da Saúde, que vai mudar o sector.

Nunca foi convidado para ser ministro da Saúde?
Não e nunca aceitaria.

Já disse que basta um político na família.
É um princípio fundamental. Não tenho grande habilidade e há algo na política de que desgosto muito: o isolamento. Nunca trabalhei sozinho e assusta-me na reforma trabalhar sozinho. Sempre fui uma pessoa de construir pontes.

O país está melhor desde que Cavaco Silva foi substituído?
Sou um grande admirador de Marcelo Rebelo de Sousa, não sendo ele da minha área política.

O país estava carente?
Completamente, o calor humano é essencial para autoestima das pessoas. E, ao contrário do que tem sido dito, não concordo que ele esteja a banalizar a função. Na altura própria tomará as decisões certas.

Viu o filme “Habemus Papam”, de Nanni Moretti?
Vi.

Quando Deus não basta, procuramos o psiquiatra?
Não, Deus tem um papel muito importante. Sou agnóstico, mas explico aos netos que não sou ateu. Eles não sabem bem a diferença. Não sou contra a ideia de Deus, mas temos papéis diferentes. Deus, para quem acredita, é uma estrutura que está acima de nós. O psiquiatra tem de ser mais próximo.

Um amigo seu, António Lobo Antunes, escreveu que “nós somos quem fomos”. Quem foi Daniel Sampaio?
A infância e a adolescência explicam quem sou. O que tenho de positivo: ser responsável e ter noção de serviço devo aos meus pais, alguma reserva e o meu lado um pouco sombrio à minha adolescência e a minha ternura devo-a fundamentalmente à minha avó e à minha mulher com quem sou casado há 45 anos.

Está a perder amigos. Pensa muito na morte?
Penso, mas procuro não pensar que posso não viver muitos mais anos. Gostava de chegar aos oitenta.

expresso.sapo.pt

 

 

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