Sentimento de saudade pode atingir nível obsessivo, diz psiquiatra

 

Sentimento pode ser prejudicial e até apontar grau de ansiedade; veja como.
Médico especialista alerta sobre sintomas ‘velados’ que indicam patologias.

  
 

O ditado popular “quem vive de passado é museu” só se aplica mesmo para quem não tem um perfil mais afetivo, mais emotivo. Difícil não deixar que as memórias estimuladas por datas especiais, como Natal e Ano Novo, tragam a saudade à tona. Mais difícil ainda é ignorar esse sentimento que, segundo a psiquiatria, pode interferir diretamente na vida de quem se permite senti-lo.

Por esta razão, o G1 e a EPTV – afiliada da Rede Globo nas regiões de Campinas, São Carlos, Ribeirão Preto (SP) e Sul de Minas-  escolheram abordar este tema neste fim de ano. A partir deste sábado (17), o portal de notícias publica conteúdo multimídia diário na página oficial do projeto “#SaudadeDeQuê”. Já na televisão, será exibida uma série de reportagens especiais entre os dias 26 e 31 de dezembro no Jornal da EPTV 1ª Edição.

O problema que pode ser gerado pela saudade é que o “jeito de sentir” afeta a saúde, pode atingir níveis críticos, obsessivos e até ser um indício de ansiedade exagerada, de acordo com a psiquiatria. [No video acima você confere as explicações para cada “momento” da saudade]

tarja saudade psquiatra (Foto: Matheus Rodrigues / Arte G1)

Segundo o psiquiatra de Campinas (SP) Geraldo José Ballone – membro da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, professor da Faculdade de Medicina da PUC de Campinas por 21 anos e autor de livros na área, a saudade obsessiva tem um efeito crônico.

São lembranças, pensamentos, reminiscências, que voltam e voltam na consciência da pessoa causando cada vez um incômodo, um mal-estar, um aborrecimento, uma depressão”
Geraldo Ballone, psiquiatra

Para aquelas lembranças que são “ruminantes”, insistentes e invadem a consciência sem que a pessoa queira, são atribuídas a relação com a obsessão.

A pessoa percebe que o pensamento não se justifica, mas não consegue se livrar dele.

“São lembranças, pensamentos, reminiscências [recordações do passado], que voltam e voltam na consciência da pessoa causando cada vez um incômodo, um mal-estar, um aborrecimento, uma depressão”.

Segundo Ballone, é necessário um tratamento especializado, com psicólogo e psiquiatra, para aliviar esse sofrimento.

Personagem triste (Foto: Matheus Rodrigues / Arte G1)Saudade excessiva pode causar tristeza e depressão (Foto: Matheus Rodrigues / Arte G1)
 

O psiquiatra explica que a ansiedade aparece naqueles que sentem “saudade do futuro”.

Ele [paciente] menospreza o presente em nome de um futuro que ele nem sabe se chega”
Geraldo Ballone, psiquiatra

“A gente chama isso de ansiedade antecipatória. São aquelas [pessoas] que vislumbram um conforto, uma tranquilidade, uma paz. Não agora, que a vida está corrida. Mas, daqui a pouco, ali no futuro. Então, ela tem saudade de uma tranquilidade que ela está conquistando”, explica o especialista.

O traço de ansiedade, no entanto, não é uma doença, mas uma carcterística. Quem tem, precisa aprender a dominar ou pode buscar tratamento, nos casos mais graves. Tudo para evitar um “esquecimento” do presente.

“Ele [paciente] menospreza o presente em nome de um futuro que ele nem sabe se chega”, afirma Ballone.

Uma tristeza repentina e sintomas, como tontura, formigamento, dor de cabeça, por exemplo, podem ser indícios de uma saudade “velada”. Esse sentimento pode ter ressurgido em uma data emotiva – Natal, Ano Novo, Carnaval, Dia das Mães, entre outras – e atingiu níveis extremos a ponto de prejudicar a saúde. Muitas pessoas têm dificuldade de identificar que a causa para o mal-estar é o estado emocional.

Segundo o psiquiatra, as datas expressivas, emotivas e que marcam muito a pessoa são responsáveis pelo aumento de cerca de 30% da procura nos consultórios de psiquiatria.

Dr., eu gostaria de dormir hoje e acordar bem depois de ter passado essa data importante”
Geraldo Ballone, psiquiatra, comenta exemplo de queixa relacionada à emoção

“Algumas vezes, o paciente traz a própria queixa. Fala, ‘Dr., eu gostaria de dormir hoje e acordar bem depois de ter passado essa data importante’. (…) Normalmente a pessoa tem essa noção, que aquela data ele não gosta, odeia, evita, em graus variados. E algumas pessoas não sabem precisar, com a consciência clara, por que exatamente eles estão piorando”, afirma.

No entanto, os pacientes costumam dar dicas para os especialistas de que a emoção está diretamente ligada ao sintoma, segundo ele.

“A própria pessoa não cita, porque ela quer ser investigada.(…) Para ela se convencer de que, fisicamente, não tem nada. Aí, sim, ela ficaria com a parte emocional”.

Personagem pensando no futuro (Foto: Matheus Rodrigues / Arte G1)Personagem com saudade do futuro (Foto: Matheus Rodrigues / Arte G1)
 

Ballone explica que o tratamento varia de acordo com a personalidade do paciente. O ideal seria fazer, paralelamente, consultas com psicólogo e psiquiatra.

“Com o psicólogo ele conversa, externa todos os sentimentos, emoções, e o psiquiatra prescreve o medicamento que ele acha adequado para ansiedade, depressão, angústia”.

Entretanto, qualquer tratamento só tem sucesso se o próprio paciente concordar que a causa do problema dele é emocional. Se ele duvidar, tende a piorar.

“Daí, ele quer provar para o médico que não é emocional, já que está piorando. O nosso aparelho psíquico prega algumas peças na gente, e uma delas é essa”.

Assista à entrevista completa no vídeo no início da reportagem.

Psiquiatra de Campinas Geraldo José Ballone (Foto: Luka Arantes / EPTV)Psiquiatra de Campinas Geraldo José Ballone (Foto: Luka Arantes / EPTV)
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